Predador e presa

Dia após dia, hora após hora, nós produzimos. Se não, pensamos em produzir. Se não, de novo, pensamos que não estamos produzindo. Deveras, uma sociedade do cansaço. E aqui, já estou cansado de explicar o recorte social ou geográfico ou o raio que me parta. Deixarei esse exercício para o leitor, assim como a captação da referência intertextual bem direta logo antes ou futuramente. Estaria eu amargo? Ora, claro. Assim como o café que eu bebo dia a dia para ter um golinho de ânimo. Contudo, estar ou ser amargo não é algo ruim. Café, amargo como a morte, é maravilhoso  — Ok, você pode não gostar de café ou de amargor. Então, talvez, você nem seja meu público-alvo. Estar amargo é estar, de certo modo, desperto. O problema, é que se a gente não se ilude um pouco, a realidade por ser amarga demais  —  uma verborragia visceral que descolore o prazer de viver, contaminando o gosto com pungência e ‘irremediação’. Então, melhor se iludir um pouco. Afinal, para conseguir trabalhar tanto, sem conseguir produzir trabalho real (entenda a referência), é preciso de uma ilusão de que há um propósito ali. 

E então a gente aceita. Nossa, e como aceita. O que nem é tão bom nem tão ruim, afinal, tem gente bem pior, e quem tá melhor são os outros (ou por estarem, ou por parecerem) e não há o que fazer. E a gente vai lá, minuto após minuto, semana após semana, dopados de que isso é assim. E talvez fosse pior se fosse diferente. Logo, estamos bem confortáveis com anestesias e distrações do que, no fim das contas, não se tem o que fazer. Não é? Pois bem, é sim. Desse modo, cientes de que não estamos atentados ao que é a amargura da realidade, seguimos pela correnteza do tempo. Não há fadiga quando há torpor. E tá tudo bem. Tá sim. Está tudo ótimo. 

Mas, assim, só para não deixar de falar, sabe o que é curioso? A gente tem um monte de tecnologia para nos ajudar. A velocidade da viagem da informação é tão rápida, que não precisamos mais levar a informação fisicamente, carimbada, timbrada, autografada e selada até onde for preciso. Ela vai, agora, pelos bytes. É tanta velocidade, é tanta eficiência, que a nossa vida poderia ser só fácil. A gente, certamente, usa a tecnologia para produzir mais, nos poupando tempo e esforço. Não é? A gente não a usa, em suas muitas formas, para nos prender a ciclos sem fim de trabalhos que não são trabalho. Nem para ancorar uns aos outros em ilusões que a gente nem queria pegar. Não, não! A gente usa para o bem. Bem de quem? O nosso? Claro, certamente e obviamente. Não usamos para criar ferramentas que aumentam o torpor e nos faz querer passar mais tempo com a ferramenta do que com a realidade. A gente não criou algoritmos para nos afogar em ansiedade e comparação, num ambiente virtual que nos desconecta uns dos outros e da realidade. A tecnologia permite aproximar ideias, compartilhar histórias e memórias e gostos afins, sem medo de fazer isso. A própria convivência de pessoas que usam essas tecnologias se tornou mais aberta, contemplativa e agregou para a melhoria da comunicação, agora que é tão fácil achar exemplos do que se gosta de ver, ler e observar. Sem quaisquer dúvidas, nós estamos todos mais próximos e íntimos do que nunca. Ano após ano, dia após dia, tudo melhora. 

Dia a dia, a vinda indo e indo…

Fato é que o mundo tá com tanta tecnologia relacionada à informação, ao trabalho e à produção e também à conexão, que nem dá tempo de ficar atualizado com qualquer coisa. Sempre tem mais conteúdo, trabalho e coisas para ver sozinho. Acontece que a gente ainda é bicho. Nosso cérebro ainda tem os limites que sempre teve de absorver, assimilar e entender. E o problema é que a gente esquece disso e acaba vivendo dormente, achando que tá bom assim, quando a gente nem sente a vida vazando no funil do tempo. Chato, né? Nós, a gente tudinho, se fôssemos bichos na natureza, estaríamos em constante luta para sobreviver. Seja como caça ou caçador. E essa falta de facilidades, no fim, daria significado às coisas. Impediria que a vida escorresse e forçaria sua digestão — sem desperdícios. 

Qual a última vez que você notou que existem montanhas no mundo? E que entre montanhas há vales? Já reparou em como é a interação das coisas por lá? Já viu que há um dinamismo incrível entre espécies diferentes, que concorrem entre si pelo espaço e tudo mais. Das raposas que caçam com astúcia e inteligência, às lebres que se escondem na ravina, tudo tem um equilíbrio. À primeira vista, uma foge da outra, enquanto a outra parece querer o fim de uma. Só que não. Enquanto a lebre precisa da raposa para estar alerta, e aprender sobre esse estado a fim de sobreviver, a raposa necessita que a lebre exista para ela mesma existir (aff, ecologia 101 agora…). Elas não pavimentaram as montanhas de concreto, criaram formas de achar umas às outras e não saíram de suas tocas nunca mais, porque elas sabem que as outras existem, mas que não tem problema deixar para lá e batem ponto, postam #tbt, ignoram uma a outra só porque é mais fácil não ficar desconfortável com o convívio e a necessidade do outro e todo mundo faz isso mesmo e tudo bem que seja assim porque tem que pensar em validar a existência na produção que não é trabalho sem uma única vírgula em suas vidas infinitamente conectadas sem quaisquer conexões. Dia após dia. LOUCO NÉ? INSANO? 

No fim, com tanta coisa que nos cerca, com tanto acesso que não é acessível, a gente fica só anestesiado. E, achando que estamos livres para fazer o que quisermos, pois tudo parece mais ao alcance, a gente esquece a sensação de liberdade genuína. Assim, para a lebre que não morre porque não é caçada, resta um catatonismo existencial. Ela esquece que é presa e, por isso, toda ilusão não terá propósito. Já, para a raposa, que deixa de ser predador, o mundo aberto é uma prisão em todos os sentidos. Para qualquer uma, a melhor coisa que poderia acontecer seria uma encontrar a outra, lembrando cada uma de que a vida não precisa escorrer sem ser vista. A presa precisa lembrar que é presa. O predador precisa saber quem ele é. E, a gente, a gente é bicho. Seja caçador, seja caça ou seja metáfora, é preciso não esquecer esse fundamento. Assim, a vida fica menos amarga, um pouco mais azeda, e muito mais libertadora. Um pouquinho mais a cada dia. E, para retomar um gostinho sobre a própria vida, tudo que é preciso é um vislumbre sobre a própria condição.

Vamos explorar o vale juntos? Que tal?

Bem melhor, né? Mais otimista agora. Só tem um porém… ou vários. As coisas não se resolvem do nada. Mudanças acontecem quando ações são tomadas  —  apenas. Se nossa lebre for vista por uma raposa que nada faz, ela nada precisa fazer, não é? Nós, bichos que pensamos e nos preocupamos, quando ganhamos conhecimento sobre algo, precisamos fazer qualquer coisa a respeito. Seja entender a situação do mundo, seja se mover, seja caçar ou ser predado, o que importa é iniciar uma atitude. Baixar os níveis de conforto das ilusões e fazer o coração bater, ora. Certificar-se de que o que corre é o sangue. De que o vale seja explorado e que a metáfora seja entendida. Senão, nada carece de preocupação. Mesmo que passe tempo após tempo, é só ficar na mesma. 

Pronto, acho que adicionei a acidez que faltava  — assim como falta o café que estou indo passar agora mesmo. No fim, espero que a raposa ache a lebre e a devore. Assim, a natureza revela algum sentido e as duas ficam livres. No geral, o mundo precisa de um amarguinho. Nada garante que uma Shakira apareça cantando “Try Everthing” para você resolver acordar para a própria vida. Agora, e você? Tá na sua toca? Sabe o que você é? Pretende sair dela? E sair da caverna? Não? Sim? Espero que seja um bom dia e um bem-vindo. Do contrário, sempre será noite.

Demasiado Demais

Minha vó sempre repetiu: “tudo que é demais, tudo que é exagero, faz mal”. Ela cumpre com essa máxima? Certamente que não. Minha avó, que amo muito, só para deixar claro, é mais do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Em todo caso, essa introdução não é para discorrer clichês e ditados ou lugares comuns. É para te trazer aqui pertinho de mim, pessoa que lê. Pra gente criar um laço, ter um momento gostoso nesse monte de palavras escolhidas ao acaso. Viu como já estamos mais íntimos agora que você sabe disso? Pois bem, sigamos como amálgamas. 

Final de 2024. Eu recebo uma avaliação sobre mim: de que sou excessivo  —  principalmente em um aspecto da sexualidade. Bem, essa avaliação veio de quem pode fazê-la, obviamente. Ao que tudo indica, há ainda outros que concordam com essa visão. Desde então eu tenho pensado muito no assunto. Ao invés de desassociar, eu assumi a possibilidade e comecei a pensar “e se eu sou excessivo mesmo?”. Será que isso seria simplesmente ruim? Se fosse, eu poderia fazer algo a respeito? Questões demais, autor de menos. Quiçá, as respostas precisassem ser entendidas. Para tanto, busquei amigas e amigos, levei para a terapia e busquei meus eus interiores, recorrendo a memórias e toda sorte de recursos que eu dispusesse. Fato é, eu fiquei impactado com isso. Assim, comecei uma jornada. 

Já adianto que não terminei. Talvez nunca termine. A vida é assim, no fim das contas. E isso é ótimo. Outrossim, se eu tivesse minhas respostas fechadas e prontas, certamente não me preocuparia com retornos que os outros me colocassem. Meu mundo seria um purgatório de certos e errados meus, tão prontamente eu quisesse ignorar a complexidade das coisas. E, se fosse assim, talvez eu fosse constantemente feliz (o que, na prática de quem é senciente e consciente, não é possível).

Quem não é o caos de vez em quando?
Foto por Finn Semmer

Seja como for, fui às amizades. Expus o ocorrido e pedi uma opinião sincera. Entre muitas respostas, meus amigos e minhas amigas trouxeram grandes momentos em que cometi gafes, em que falei mais do que precisava e até outros nos quais eu ofendi alguém. Um deleite relembrar e perpassar meus defeitos, saboreando as falhas e aceitando que fiz aquilo mesmo. Um deslumbre. Contudo, nenhum deles e nenhuma delas acha que eu seja demais. No geral, a percepção deles é a seguinte: você (autor aqui) é extrovertido, gosta de muitos assuntos, se sente confortável em falar com os outros. Em algumas vezes, se empolga muito, mas isso não é demais. Não é sempre. Não é, sequer, frequente. 

Com essas respostas, eu levantei mais perguntas do que antes. E o fato de eu não estar colocando-as aqui, é porque isso é um texto dissertativo (é?!) e não uma lista de perguntas (uma lista de perguntas pode ser dissertativa?  — acho que não… acho). Contudo, algumas são insumo desses parágrafos. Por exemplo, qual é a frequência em que falar demais me tornaria demais? E outra, demais em que sentido? Em falar demais, sem parar, tal como um rio desaguando informação sem cessar? Demais em interagir muito, ao ponto de causar desconforto no outro? Demais em fazer coisas demais? Me empolgar demais? Criticar demais? Rir demais? Listar demais? Ora, demais no quê?

De todos a quem recorri, um amigo e uma amiga foram um tanto quanto mais detalhados em suas respostas. Esse amigo disse que não sou excessivo ao ponto de criar desconforto aos outros, nem que eu seja inconveniente ou cause incômodo constantemente. Ele me lembrou de momentos em que fui exagerado em falar coisas fora de hora ou até mesmo fui grosseiro. Mas não tanto como qualquer outra pessoa pudesse ser. Assim, na qualidade de extrovertido, eu sou meramente mais comunicativo do que um apanhado de pessoas próximas. Dentre todas as respostas, a dele foi uma das mais completas e gerou uma reflexão interessante. Só que não ‘resolve’ tudo, afinal, há um contexto e é a convivência. 

No passado, amigos que viveram comigo manifestaram a opinião de que era difícil viver comigo ou me acompanhar, porque eu simplesmente fazia coisas demais. Claro, no contexto em que dividia a casa com um amigo e eu cursava duas graduações ao mesmo tempo e dormia muito pouco para dar conta dessa rotina, certamente ele poderia ter essa impressão. Outros amigos comentavam que eu fazia parecer fácil ter diversas atividades simultâneas, mais graduações e vida social. Porém, apesar da visão incrível que tinham de mim, as comparações não eram boas. Primeiro, eu não tinha uma qualidade de vida tão boa para conseguir me dedicar às coisas que fazia  — eu dormia pouco. Eu até podia ver meus amigos e saía de vez em quando com amigas, mas isso era espaçado. Eu saí das redes sociais à época e eu vivia cansado e até estressado com pequenas coisas. Contudo, eu não reclamava das coisas. Sempre achei que reclamar por reclamar não ajuda, que no geral, atrapalha. Obviamente isso vem da minha vontade de me distanciar de quem fala “faça o que eu mando e não o que eu faço”, cuja vida era reclamação sem ação. Além disso, eu não faço muitas coisas ‘demais’. O tempo que eu uso para ler um mangá, escrever um texto, jogar RPG ou estudar, é o mesmo tempo que eu usaria para ver muitas coisas em um Instagram ou publicar coisas no X, finado Twitter. A quantidade de vezes que amigas iam à baladas e beijavam era uma quantidade superior em horas do que eu passava para estudar bioquímica ou história da alimentação. Eu não fazia demais e nem nunca fiz. Mas aí, se moro com quem quer se destacar no emprego, se aprofundar em muitos assuntos e se graduar em uma federal, mas que não consegue criar uma rotina de investir tempo para essas coisas, entretanto, consegue organizar 3 churrascos por mês, acho que a frustração dele não era comigo. Eu era o alvo. E nesse sentido, eu certamente sou demais se comparar do jeito enviesado. E, claro, o fato de que eu estava solteiro e sem ficar com outras ou outros, passou despercebido por esses amigos. Eu ainda tinha toda uma questão de sexualidade não resolvida, não explorada, não vivida e bem desentendida. E esse foi o ponto que aquela amiga do retorno interessante trouxe. 

Sabe quando a gente tem uma amiga boa, mas boa mesmo? Daquela que discute com a gente num nível de questionamento que não deixa a desejar? Que não recorre a respostas mágicas ou qualquer sorte de bobagem que não seja justamente a consequência dos nossos atos e a responsabilidade das nossas ações? Pois é, essa amiga é assim. Um debulho e maravilhosa. E foi com ela quem mais discuti. E aqui, antes do texto beirar uma intimidade muito preocupante, pessoa que me lê, vamos tomar medidas para não ser demais para você. A conversa com ela foi boa, levantando perguntas no processo. E o assunto da sexualidade obviamente veio à tona: já que eu poderia ser sexualizado demais. E isso é algo não incomum em homens gays (tem literatura, vídeos no Youtube, artigos na internet todinha que abordam o tema). Poderia até ser compulsão, quem sabe? Quem sabe eu mesmo não deixei de fazer ainda mais coisas porque estava ocupado pensando em ou exercendo sexo. Ora, certamente poderia ser uma possibilidade. Mas, quanto à compulsão, vou deixar para checar na terapia — só pra ter certeza, afinal, eu quero investigar todas as possibilidades  — e não nestes parágrafos. 

De onde veio esse questionamento, esse retorno? Ora, do incômodo de um parceiro, da convivência comigo. Para deixar o mundo ciente, de todos meus namoros, oito ao todo, eu só namorei duas pessoas extrovertidas. Não sei se eu tenho um tipo, mas aconteceu que o restante todinho compõe cores de timidez e notas de mostrar-se e expressar-se pouco em público. Em todo caso, eu sempre fui o mais falante e expressivo na relação. 

Agora, segundo meu parceiro, eu sexualizo demais as coisas. Os comentários, as piadas, os toques, a libido… É de eu ver um cara bonito e comentar, seja um ator ou um aleatório num café. É por dizer que faria fulano e ciclano e mais um bocado de isso e aquilo. É também sobre interagir virtualmente, durante viagens, no mesmo campo. A visão dele certamente captura uma frequência muito maior do que dos amigos. Mas aí, o convívio captura tudo, não é mesmo? E, para um introvertido, acho que pode ser demais, muitas das vezes. Durante as conversas com meu parceiro, após a avaliação dele sobre meu comportamento, questionei sobre quem concordava com essa opinião dele de que eu sou sexualizado demais. Eis que o concordante é um amigo além do introvertido, que, a meu ver, é muito desconectado da sexualidade. Aí, é claro que o sujeito se incomodaria, não? Um cachorro lambendo as próprias bolas iria incomodar por estar mais sintonizado do que ele.

Sexuais demais.
Foto por Ketut Subiyanto

Após essa iluminação de quem tem essa visão, acho que o ‘demais’, sempre relativo, se torna muito momentâneo, muito circunstancial. No fim, não era tanto sobre mim. Acontece, que este texto é sobre mim (mas só?), assim como minha busca. Mas, e se, de fato, eu for demais em vários momentos? Na conversa com a minha ‘best’, eu falei do outro amigo que nem se interessa tanto por sexo assim. Então ela trouxe uma interpretação de Lacan: Difícil sentar ao lado de quem é livre. Desse modo, faz sentido que algumas pessoas sintam-se incomodadas. No fim, todo mundo pode incomodar todo mundo. Mas, da maneira como coloquei, fica parecendo que eu me entendo como livre, certo? Então, vamos elaborar isso. 

Em comparação a algumas pessoas, eu realmente acho que posso ser mais livre sim, no assunto sexualidade. Primeiro, eu não sou um homem hétero. Isso, por si só, já me obrigou a pensar minha sexualidade mais do que a maioria dos homens cis e heterosexuais contemporâneos a mim. Ainda, o assunto sexo sempre me interessou. Eu, dos três anos (idade na qual descobri como eram feitos os bebês) em diante, sempre me aproximei do assunto. Aos oito anos eu lia um livro de biologia do Telecurso 2000 e entendia termos como gônadas, espermatozóide, óvulo, fecundação, penetração, gestação e afins. Aos doze eu caçava, nos faróis do saber (bibliotecas públicas de Curitiba), livros que explicavam masturbação, partos, desejo sexual ou qualquer forma de saciar a curiosidade sobre o assunto. Na adolescência eu tinha conhecimento sobre ISTs (DSTs à época), métodos contraceptivos, riscos do contato com fluidos, problemas da má higiene genial para desenvolvimento de infecções. Eu claramente consumia toda porcaria rasa que passava na televisão sobre, e revirava os olhos às perguntas que eram óbvias, para mim, nos programas da tarde e da madrugada, como Programa Livre (SBT, 91-99) e Altas Horas (Globo, 99 em diante)  — gente, claro que sexo oral não engravida, o esperma vai ser digerido antes, pelo amor do seu deus. Eu também consumia revistas de curiosidades, coisas como: 150 perguntas e respostas sobre sexo. E mais muitas coisas. Era o único assunto que eu me interessava e consumia? Claro que não. Eu amava (e amo) ler e conhecer coisas. Tinha tanto interesse por sexualidade quanto por dinossauros, Pokémon, jogos, histórias em quadrinhos, mangá, química e comportamento humano. Saber das coisas e aprender é muito prazeroso. Me dá angústia não questionar os porquês das coisas, assim como os comos, quantos, os o quês e os ondes.

O que acontece, é que, na nossa sociedade ocidental americana, sexo não é conversado, quiçá discutido, livremente. Então, quando eu via que podia responder às dúvidas mais simples de quem estava ao meu redor, passei a ter mais prazer ao saber e falar do assunto. Ora, como homem LGBT+, eu tive que lidar com tudo que achava que sabia sobre mim mesmo. O fato de ter sido criado por uma família religiosa, a culpa cristã exalando em cada poro, e as questões de ter uma origem humilde, em que ninguém teve apreço ou tempo por conhecimento, fizeram minha jornada pessoal precisar de bastante aprendizado para me libertar de conceitos errados. Foi lendo muito artigo (como jovem adulto, dos 22 aos 25) que eu consegui entender que minha sexualidade não estava errada. Eu, mesmo com muita informação, fui me assumir pra mim mesmo muito tarde, já com vinte e cinco anos. E isso era só um começo: as questões da sexualidade experienciada tardiamente são comuns em gays, que acabam desenvolvendo comportamentos de risco para viver uma adolescência tardia. Sem contar coisas como descobrir-se sexualmente com um parceiro. Ainda, relações com o corpo, os pontos sobre a prática sexual em si, a falta de informação especializada sobre vivência e saúde gay, e tantos outros fatores são fundamentais ao entendimento de quem se identifica na sigla LGBTQIAPN+. Se a gente pensar um pouco, isso seria bem esperado, ainda mais num mundo em que o orgasmo feminino foi ‘descoberto’ há poucas décadas pelos homens. Dá pra imaginar, que pro cara que é heterossexual, que nunca teve a sexualidade questionada em si, nem precisou se justificar (para si mesmo ou para outros), que alguém que trate o assunto com naturalidade no dia a dia, isso seja algo potencialmente excessivo. No mais, acabo por ser alguém que gosta do assunto e está aberto a falar sobre. E a ouvir também. 

O que as pessoas esquecem, é que sexualidade permeia tudo. Pessoas queer não seriam mortas se a sexualidade delas não incomodasse. E não é o ato sexual de penetração (considerando que isso é uma modalidade que ocorre) ou qualquer prática que leve ao orgasmo (ou mero gozo). Sexualidade é tudo, bebê. É você se achando bonita ou feio em frente ao espelho. É seu gesto feminino de mexer as mãos e alinhá-las à cintura. É sua carinha fluída que atrai quem tem interesse. É sua masculinidade expressada por sua voz. E, obviamente, todos são fatores lidos pela lente da cultura e sociedade. E se estamos vivos no tempo de agora, nós iremos ser lidos pelo tempo de agora. A sexualidade está no cerne disso tudo. Na roupa, na entonação, nos gestos, na atração, no amor, na foda, no chá de bebê (gente, nós parabenizamos pessoas heterossexuais por terem transado e feito um feto), na forma do beijo, nos componentes do seu DNA. E eu sou só uma pessoa que enxerga sexualidade nisso tudo  — há outras. 

Então, sou eu excessivo, ou esse é só um desabafo inútil? Bem, não acho que desabafos sejam inúteis. Seja como for, eu sempre serei um pouquinho demais. Em alguns dias, bastante; em outros, pouco. Acho que o lance é ter consciência disso. Eu certamente irei comentar sobre sexualidade quando o assunto surgir. E certamente estarei com ouvidos dispostos quando alguém quiser me falar sobre. Preparado para acolher quando for preciso, e partilhar na hora em que for conveniente. Afinal, eu posso ajudar a resolver a dúvida ou a angústia de alguém  — nem que seja para recomendar um profissional. O que importa é que isso faz parte das interações humanas. Sexuadas ou não. No que tange qualquer assunto, eu sempre vou ser demais para alguém. E esse é o custo da convivência. Assim, quanto à sexualidade, concluo que eu só não sou uma ‘orelhinha virgem’. Agora, me conta, e você?
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Faca tijolo e desamizades

Era algum dia em 2011. Eu já não lembro o motivo exato, mas estávamos indo na casa de um dos integrantes daquele grupo. Que grupo? Bem, eram supostos amigos novos e eu. Acho que estávamos saindo de algum bar, barra,  balada. Enfim, era madrugada e cruzávamos o bairro Alto da Glória de Curitiba, para chegar ao apartamento do meu amigo. Durante o caminho, fomos interceptados, muito de surpresa, por um grupo de torcedores do coritiba (sim, com letra minúscula, pois não faço questão de nome próprio para qualquer coisa). Os caras achavam que éramos de outra torcida organizada e queriam brigar. Felizmente, nada aconteceu, nós nos apressamos e chegamos no apartamento. Pensando bem hoje, aquele momento foi um risco desnecessário, porque um dos meninos estava gritando e chutando uma caixa de papelão (coisa que eu tinha sugerido para não fazer) e isso atraiu os abissais da torcida organizada. Pois é, gente que gosta de perder tempo atrai quem gosta de perder tempo. Críticas de lado, nós estávamos no apartamento e com muita fome. Não tínhamos dinheiro suficiente para pedir comida, além de ser madrugada, que por si só já é um limitante para estabelecimentos abertos. Assim, eu me propus a cozinhar algo (ser o único a se propor nem chegou a me chocar, mas ser o único que parecia saber cozinhar, isso me pareceu bizarro). Na casa tinha uma cebola, macarrão, leite, margarina, um nada de farinha de trigo e sal. Basicamente nada, mas deu para improvisar um molho branco e um macarrão.  

Durante o preparo, eu fui cortar cebola. A faca que me foi dada não tinha fio. Sim, ela tinha um lado em que era possível imaginar um fio. Talvez fosse um fio platônico ou algo do tipo. Eu estava cansado, e o tijolo chamado faca estava esmagando a cebola e me fazendo chorar (o melhor favor daquele dia, pensando bem). Além de mim, havia mais outros jovens:  o anfitrião, que estava focado em beber álcool; um amigo dele, que dizia ser bissexual e por quem eu tinha  um “crush” leve; um cara com nome de três letras que fazia muito barulho; um outro cara que gostava de se gabar; e um último ser era um jovem que falava incansavelmente, sobre qualquer coisa, desde que fosse uma forma de reclamação. Nenhum deles ajudou a preparar, apenas um agradeceu, nenhum lavou a louça, todos reclamaram de alguma coisa. Além disso, eles eram um grupo de amigos entre si. Eu era um forasteiro. Pois bem, esse evento ficou no passado (como todos os outros, né?!)

Quando a amiga reclama até do ar que respira, mas faz zero coisas pra mudar. E você DEVE deixá-la reclamar pra você.

Agora vamos mudar um pouco o assunto. Prometo que logo volto ao relato e chegarei ao motivo de tê-lo escrito. Vamos falar sobre amizades. Você, caso tenha amigos ou amigas ou ambos, deve achar isso bom [amizade]. Ter alguém com quem você possa conversar, ser você mesmo, trocar ideias, viver momentos ou passar tempo de qualidade, é algo maravilhoso  — somos seres sociais, enfim. Contudo, já parou para pensar por que você tem as amizades que tem? Acho que essa pergunta pode dizer bastante sobre quem somos e como vivemos. Mas vamos mais fundo. Vamos de contextualização. 

Quero que você imagine alguém que é introvertido ou muito tímido. Alguém que não se aproxima muito facilmente de gente desconhecida. Agora imagine esse comportamento durante parte longa da vida. Acho que dá pra imaginar que a pessoa que for assim terá, muito provavelmente, uma sensação de ser sozinha ou de estar sozinha, caso não faça amizade com outrem. Agora, imagine que um dia, uma outra pessoa chegue nesta que é introvertida e se aproxime. De repente elas começam a passar tempo juntas e formar uma amizade. Legal né? Agora, e se essa outra pessoa, a que foi falar com a introvertida, é, na verdade, alguém bastante mandona, egocêntrica e que só quer outras pessoas perto para que possa delegar funções em sua vida. Será que a introvertida notaria esse lado ruim? E outra, será que ela se afastaria de alguém ruim, já que não tem outras amizades? Agora comece a pensar que tudo isso tem muitas camadas de complexidade. Ainda, pense em quantos tipos de pessoas enxergam amizade quando não há qualquer coisa além de abuso  — imagine um traficante que se faz amigo de alguém em situação vulnerável, por exemplo. Não precisamos pensar em coisas extremas, mas elas são mais fáceis de entender e notar. Quanto a amizade é uma relação abusiva e sutil, a gente deixa passar. De fato, nós podemos deixar muita coisa passar, dado que tenhamos consideração por alguém. E isso pode ser terrível. 

Sabe quando você está cercado de pessoas e mesmo assim se sente sozinho? Caso não saiba, isso existe. Eu era uma pessoa assim. Fui assim durante bastante tempo. Eu tive épocas com amigos que não queriam saber o que eu queria fazer, exceto o que eu queria fazer dentro do que eles quisessem fazer. Chato, né? O grupo que eu citei nos dois primeiros parágrafos navegava nessas águas turbulentas. Nenhum deles se importava comigo, exatamente. Eu não estava incluído. Eu só estava junto. Felizmente, novamente, eu cortei o contato. Eu já tinha passado por vários momentos de conflito e confronto com supostas amizades, com quem eu sofri luto de perda e pude aprender bastante. Amigos têm que te deixar à vontade para que você possa ser você mesmo. Tem que ter liberdade para discutir, discordar e crescer juntos. Deve ser uma “via de mão dupla”. Amizade não deveria te cansar, te exigir, te exaurir e não te fornecer uma troca justa (de emoções, de tempo, de concessões, de sentimentos, de tudo que for possível). Seja como for, esses exemplos todos vêm da minha experiência. E eu tive muitas formas de amizade durante meu crescimento como pessoa. Agora, e quem não teve? E quem teve pouquíssimos amigos ou amigas durante a vida? Como saber se esses amigos ou essas amigas são boas para você? Aqui está uma boa pergunta, não acha?

Quem é mais vulnerável, pode se apegar a quem não faz bem. E, no fim, todos somos um pouco.

Existe uma série que eu amo, chamada Being Erica. É uma série canadense, em que a protagonista faz tratamento com um psicólogo que permite reviver, literalmente, seus momentos de arrependimento na vida. Num dos episódios, ela é confrontada com a ideia de que a relação dela com uma certa amiga é ruim. Ela leva um bom tempo para perceber que a outra não se importava com ela e usava da protagonista para fazer suas próprias coisas. E é mais ou menos por aí que eu gostaria de chegar. A gente muitas vezes se apega a quem não nos dá um pingo de valor. Essa afirmação, mesmo que pareça um recorte de livros de autoajuda dos anos 90, é sobre algo corriqueiro. E a gente não quer parar pra pensar sobre o quanto nossas queridas amizades podem nos ser nocivas. Ou será que pensa? Ainda, e se a gente for esse amigo nocivo a alguém? Responsabilidade emocional é algo que podia ser mais disseminado. Não é porque faz gozar, que vale mais do que meia hora. 

Acho que esse texto não foi dos melhores. Mas quem sou eu para alegar isso, ainda mais no próprio texto, não é mesm?!. Eu digo isso porque eu permeei por assuntos diversos e só pincelei minhas visões. Fique à vontade para discordar e escrever em seu próprio blog a respeito do assunto. Sinceramente, o assunto é bastante complicado, muito complexo e eu não sou especialista para tecer certezas aqui ou em qualquer lugar. Porém, se a gente tiver que ser especialista sobre tudo antes de tomar decisões, ninguém vai viver mais um único minutos. Então não é bem por aí. Entretanto, cada um tem sua própria história (obviamente) e, possivelmente, sua própria noção de amizade boa ou profícua. E, qualquer um, às vezes, pode estar cercado por quem não faz sentido, achando que está com amigos novos. Pode achar até que está se divertindo, quando na verdade está assustado porque eles não o ouvem e chutam caixas de papelão que irá atrair facínoras uniformizados. E isso não é bom. Bom é ter amigos que te escutam, que prestam atenção, que fazem por você o que eles podem e você faz o mesmo por eles, e cuja relação é mutuamente benéfica. Da próxima vez que te convidaram para ir num bar qualquer e depois disso forem para algum lugar, e reclamarem de você sem terem feito qualquer coisa para sanar quaisquer problemas possíveis, simplesmente desapegue. Você não merece menos do que uma relação de igualdade. Ao menos eu gosto de pensar que sim. No mais, há tipos diferentes de amizade, cuja distinção eu não fiz aqui neste texto não tão bom assim. Mas não serei eu quem falará de todas elas. Eu escreverei só sobre o que eu quiser e puder. Na próxima vez eu trarei um texto bom, que fale sobre comida. Texto bom é sobre comida  — e até o macarrão deste texto estava ruim.  c[_]

Quem dorme com seu ônus?

Quando você se descreve para alguém, como faz isso? Ou, quando as pessoas te descrevem, o que elas falam? Aqui a gente já adentra numa série de questões bem interessantes. Primeiro, quando nos descrevemos, a versão da descrição muda dependendo de “com quem” estamos falando. Ou você fala de si mesmo do mesmo jeito em uma entrevista de emprego, em um almoço na casa da vó ou num encontro com interesses afetivos da exata mesma forma? Suponho que sejam formas diferentes. A mesma diferença deve ocorrer quando falam de você, variando de quem fala e para quem esta outra pessoa está falando. Sua mãe deve falar de você de um certo modo ao conversar com uma tia sua e de outro modo ao conversar com uma colega de trabalho (dela, sua, de outrem, tanto faz). E certamente há muitos outros exemplos para por aqui, a fim de deixar este primeiro parágrafo mais abrangente  —  e, quiçá, torná-lo num vasto campo de inclusão, para criarmos uma enciclopédia de exemplos. 

Agora, penso que você deve ter matutado algumas coisas, como ter concordado ou discordado de mim, lembrado de situação, argumentos, referências bibliográficas e até sorrido ao imaginar  algumas coisas. Eu, por exemplo, consigo imaginar algumas situações em que pessoas me descreveram de modo que eu particularmente não gostei  — em contextos que ainda se repetem. Em alguns casos, pelo exagero, em outros, pela superficialidade. Contudo, as pessoas falam daquilo que elas percebem, dentro de suas limitações humanas  — olhe esse gancho para começar uma deliciosa discussão numa mesa de bar. Seja como for, uma pessoa não vai (provavelmente) descrever uma outra com inovações, ineditismos, novidades e criar um repertório para isso. Ela vai simplesmente proferir o que acha sobre. Assim, se muita gente te identifica como rude, talvez você devesse levar essa percepção em conta. Mas este foi só um exemplo bem pequeno  — pequeníssimo, como diria José Dias.

“Muito que bem”, agora que as bordas de nossa sopa foram comidas, podemos adentrar mais fundo nesse caldo grosso. Seja lá como você for, como você acha que é ou o que podem achar de você, existe um custo de conviver contigo  —  eu usarei o termo custo, porque é algo fácil de assimilar em nossa sociedade ocidental e capitalista. E esse custo vai além do que nossa conexão imediata com o dinheiro pode trazer. E este tópico é complicado, complicadíssimo. E quem vive contigo, quem partilha o tempo, as refeições, os momentos e até as lembranças, é quem paga por isso. Se você vive com seus pais ou suas mães, são essas pessoas quem têm que lidar com seu jeitinho de existir. Essas pessoas que vivem contigo, também precisam conviver com seus interesses, seus desgostos, sua voz, seu cheiro, seu ânimo, sua opinião, seus sucessos e seus fracassos e tudo mais o que você oferece só estando em um lugar por muito tempo. Se você namora e mora junto, é seu namorado, ou namorada ou namorados e namoradas, quem lida com quem você é no dia a dia. Suas ambições, decisões, ansiedades, conquistas, seu cansaço, seus desejos, medos e tudo o que você faz e, muito importante, deixa de fazer são as coisas com as quais essa pessoa com quem você está lida. “Á, mas eu tenho que lidar também, senhor Autor”, você diria. E eu replicaria dizendo que nunca escrevi o contrário. De fato, conviver é isso. E o convívio não precisa ser diário. Sabe os seus amigos? Eles que lidam com as coisas boas e ruins de você. Seja sua apreciação pelos interesses comuns ou sua restrição alimentar em não comer doces. Toda convivência tem um custo. E elas existem enquanto a gente está disposto a pagar  — considerando que há possibilidade de escolha, viu Sartre?!

Certamente não há coisas tão mais difíceis do que conviver. E isso é algo que você só entende quando vive isso. Sabe quando você conversa com os amigos sobre como sua família te enlouquece? Pois então, eles convivem contigo e você deve enlouquecê-los também. E não importa se você ama ou deixa de amar, se gosta ou o escambau. Conviver gera atritos o tempo todo. E, ainda assim, é uma necessidade e uma coisa ótima. Nós somos seres sociais, biologicamente falando (se você não entendeu aqui, posso sugerir estudar fisiologia e outras disciplinas que apresentam muitas evidências fortíssimas sobre isso). Assim, nós precisamos de outros humanos para sermos mais saudáveis. No geral, sentimos necessidade de afeto, de carinho, de sexo, de toque, de conversar, de ouvir. Sentimos necessidade de gente. E, por isso e muitas outras coisas, a gente busca não ficar sozinho. E agora estamos no meio do prato. 

Seja lá quem você for, o que você faz e o que você pensa. Se você vive com alguém, essa pessoa paga o ônus da sua convivência. Se você não gosta de fazer coisas, ela vai ter que considerar isso ao escolher coisas para fazer. Quer um exemplo? Você não gosta de ir à festas. E a pessoa com quem você está terá de lidar com isso em todas as festas de aniversário às quais ela for convidada, seja você indo ou não. Ou, digamos, que você não gosta de filmes de suspense. Cada vez que forem ver algo junto a outra pessoa terá de levar isso em conta. E claro, podemos passar mais centenas de linhas com exemplos e, quem sabe, a cada um, você pense que não passa por isso, ou que o exemplo não se encaixa na sua vida, ou que é muito tranquila a sua relação, seja por gostarem das exatas mesmas coisas e nas mesmas quantidades, ou seja por terem um acordo muito bom de convivência. Bom para você, flor. Certamente, há quem tenha generalizado para outras situações e lembrado de momentos em seus relacionamentos (amorosos, afetivos, familiares e afins), que foram “interessantes”. E qualquer dificuldade ou conflito de convívio é normal  — seja por ser natural ou por ser frequente. Isso tudo faz parte do convívio. Entretanto, vamos ao próximo parágrafo. 

Sempre tem um entretanto, Autor? Nem sempre. É que eu queria chegar às exceções aqui. Bem, a parte de que conviver é complicada e tem suas dificuldades, e eu acredito que seja a mais fácil de entender e assimilar. O problema surge quando a gente vê exceções nos comportamentos que temos que conviver, e quando essas exceções têm certos padrões. Por exemplo, se você odeia ver filmes de terror, e você namora alguém que gosta, mas você não abre concessões para seu cônjuge, porém para uma certa amiga, você os assiste sem problemas, sempre que ela quer, tem algo estranho nisso, não? Ou você mora com sua família e você reclama 50% do dia que não gosta de som alto (e sua família gosta de uma música durante o dia), mas quando você visita um conhecido e fica lá ouvindo música alta com ele? Com certeza, não é legal. 

Vamos para a parte final do nosso prato, a que eu acho ser de mais difícil digestão. Digamos que você é médico e não marca consulta de graça para seu parceiro, mas faz para um amigo você o faz. Bem, se seu parceiro convive contigo todo dia e o amigo não, essa decisão é, no mínimo, controversa. Claro que esse assunto pode levantar bastante discussão, sobre trabalhar ou não trabalhar de graça para os outros, mas quando você assume uma postura de que não vai fazer trabalhos sem receber por isso, mas o faz para algumas pessoas, então você está abrindo excessões. E minha pergunta é: para quem você está abrindo exceção? Para quem vive contigo e está ali pra você, ou para quem tem apenas a parte boa de conviver contigo, que é quando você está disposto? Independente da resposta, não digo que estará errada, mas acho que vale a pena pensar sobre isso. E isso vale para muita coisa. Da minha experiência pessoal, muitos amigos artistas odeiam quando pessoas próximas os pedem coisas “simples” e não querem pagar. Muitas vezes a própria família quer um desenho ou uma montagem, mas querem de graça. Certamente há quem queira abusar. Contudo, entretanto, todavia, os mesmos amigos artistas que eu conheço também fazem as mesmas coisas para algumas pessoas, sem cobrar nada. E isso é um direito de quem está fazendo, tomar a decisão de fazer de graça. Assim quando alguém da computação ajuda a formatar um computador de um amigo e o serviço é pagado pela conversa e amizade. Eu mesmo já fui chamado para corrigir textos de trabalhos sérios, sem que me oferecessem um cafézinho. Para algumas pessoas eu fiz, para outras não. Nada disso em si está errado, mas a escolha para quem a gente faz essa exceção é arbitrária. E ao não fazê-las para quem paga o custo da nossa convivência, me soa extranho. Por exemplo, se eu morasse com alguém apaixonado por fantasia e essa pessoa quisesse uma história para o personagem dela, e não soubesse como fazer isso, eu certamente dedicaria meu tempo para fazer algo assim, talvez na forma de conto ou de um romance curto. Dependendo, por que não fazer um projeto juntos, com roteiro e essa ser uma atividade nossa? Ou não… eu poderia negar isso. Ou, muito pior, eu poderia postergar isso e nunca entregar, nunca dar uma resposta definitiva, sempre jogando para um possível futuro. Até que um dia, quem sabe, alguém (um amigo distante, por exemplo) me pedisse uma narração profissional sobre um personagem (para um jogo, quem sabe) e eu decido fazer sem cobrar. Enquanto isso, a pessoa que vive ao meu lado fica numa espera sem fim, em que eu não recuso diretamente e também não faço o que ela adoraria receber. E fiz para um outro, quase um qualquer.

Tudo isso é muito delicado, certamente. Ao mesmo tempo que é bastante fácil de resumir em poucas perguntas: Você valoriza quem está contigo e lida com toda a bagagem de quem você é? Você abre excessões para quem em sua vida? Você evita lidar com o que acha difícil com quem você ama, mas faz o possível para agradar quem te conhece e não convive contigo? Obviamente as respostas para essas questões podem possuir uma miríade de razões e detalhes, mas pensar nessas coisas pode nos ajudar a crescer ou nos tornar melhores em convivência. Afinal, se você é o amigo que não gosta de comer coisas diferentes e vai para uma festa com seus amigos e acha que é responsabilidade deles te alimentar toda vez, porque você não vai mexer uma palha para aliviar para eles, então você é uma amizade custosa. Imagina conviver todo dia contigo? De verdade, imagine isso. Seja lá quem você for, imagine que tudo que você faz ou deixa de fazer, afeta quem está a sua volta. E nós sempre podemos refletir sobre isso. Acabou nossa sopa. Vamos de um café? c[_]

Brigadeiro de festa

Este texto nasceu de uma conversa com um amigo do trabalho. Bem, isso era o que eu gostaria de dizer, mas está longe da verdade. Afinal, este texto é estrutura, tato, trabalho e esforço trôpego, quiçá, de seu autor. Contudo, a ideia foi concebida em uma conversa no trabalho, tão prazerosa quanto sua guloseima favorita. Embora o tema possua certa ductilidade em sua pretensão, pouco importa, pois é delicioso. Acontece que a conversa vasculhou em minhas memórias sensações de estimado valor, perscrutando reafirmações sobre meu próprio gosto, nessa constante autoavaliação duvidosa que nós nos fazemos só sempre. E sim, meu doce de festa favorito é o brigadeiro. 

Uma mesa decorada com muitas coisas, papéis e embalagens diversas. Enfeites, aqui e acolá, gente ansiosa, “mas não vão cantar parabéns logo?”, vozes tentando sussurrar obviedades que não podem ser ditas, crianças tamborilando pés e mãos e dentes de leite ou permanentes. Se para você esse cenário faz algum sentido, bem-vinda ou bem-vindo ao meu texto. Do contrário… constrangimento  —  ao menos para um dos lados.

Quando eu era pequeno, na década de 90, as pessoas faziam festas de aniversário. Elas aconteciam uma vez por ano (diferente dos “mêsversários” da atualidade) e começavam a partir de uma certa idade, quando a criança pudesse lembrar. Essas festas envolviam uma comoção familiar, em que precisava limpar a casa, liberar espaço, comprar insumos para fazer bolos, doces, salgados, buscando receitas antigas em cadernos, vizinhas, comadres ou compadres. As festas aconteciam, quase sempre, na casa do/da aniversariante, que seria a pessoa central do evento. Assim, o passo seguinte seriam os convites. A começar pelas tias e tios, primos, primas, e então aquela criatura de sexto grau de parentesco que nem se importa com quem faz aniversário, mas fica desolada se não for convidada, até chegar nos amigos e nas amigas que serão selecionadas a acrescentar no quórum de convivas. 

Como de praxe, vamos parar um pouco, quebrar o ritmo do texto e amolar a paciência de quem lê com questões (vamos? Estou falando de mim na terceira pessoa do plural? Estou eu considerando que a criatura que aqui lê estará comigo fazendo reflexões? Uma quebra dentro da quebra?). Vamos, não se aborreça comigo. Continuando! Se você leu os parágrafos acima, certamente viu que eu fiz um recorte de tempo, de classe, de posição social, de crença, de cultura e de idade, e até de alguns outros. Fazer recortes é bom, tanto quanto cortar uma fatia de bolo também o é. Dessarte, é importante salientar o significado disso na realidade: essa não era a realidade de muita gente. Festa de aniversário para pessoas que são órfãs, autistas, cadeirantes, ricas ou tristemente miseráveis são realidades que não conheci e, por isso, sou limitado a esboçar adequadamente aqui. Para além disso, há quem não comemore aniversários, como pessoas testemunhas de Jeová ou pessoas que escolhem não comemorar pois não veem nisso significados. Seja como for, meu texto não é sobre todas e todos, longe disso, é para mostrar um gosto mesmo que pode ser compartilhado contigo ou não. E também para que a gente possa olhar para algo que pode ser corriqueiro e ver que tem muito tempero para apreciar nesse recheio da vida. Seja como for, acho bom você se identificar em que ponto sua existência está no universo dos aniversários. Fez isso? Ande uma casa…

Outro ponto que vou frizar e anunciar antes é que as festas que falei ali eram íntimas. Eram festas em casa, com limitações que as casas podem ter. Não eram salas alugadas em que tudo está pronto e encomendado e limpo, organizado, estéril, infértil, servil e distante. Também são com quitutes feitos em casa, a maioria, sem tantas embalagens, algoritmos de serviço para qual bandeja tem que aquecer e servir primeiro, mandando para o salão. As festas que estou falando são em casa, feitas 100% do esforço amador que deixa as lembranças juntinhas e aquecidas no coração. Claro que não faço juízo de valor sobre serem melhores do que outros modelos de festa. São apenas a minha preferência. E por fim, a festa só tem sentido quando quem aniversaria tem chance de aproveitar a própria festa (sinto muito, se um bebê que nem diferencia sons ainda está numa festa para ele mesmo, ou ela mesma, então a festa é para outra pessoa… talvez para um pai ou uma mãe biscoitar em rede social). Seja como for, uma festa tem que ser festiva. E tem que ter brigadeiro  —  ao menos se for pra mim.

A muvuca que eram as festas são lembranças divertidas. Dá para ver a fofoca ganhar vida, dá para passar vergonha cantando as músicas que sempre são listas peculiares e dá para quase tocar a ansiedade de quem quer comer logo os docinhos. E por falar em docinhos, é difícil dizer qual a gente quer primeiro se tiver variedade. Aqueles pratinhos que a gente empilha montanhas de doces nunca são suficientes para uma única jornada à mesa de doces. É preciso provar por partes. Eu sempre focava nos beijinhos e brigadeiros primeiro. Como nunca fui fã de coco, tem que começar pelo “pior”. Depois vem as delícias de olhos-de-sogra (um nome condenável), os cajuzinhos e os brigadeiros. Depois, dois amores (hummmmm) e brigadeiro (hummmmmm). Caso houvesse presente diversidades como gelatina colorida ou algum creme de maracujá, esse terceiro momento os contemplaria. E a sequência de passos era ir à mesa, pegar os doces, comer longe e repetir. De preferência longe do tio chato e fofoqueiro que fica controlando o quanto você vai comer. O melhor era quando havia mesas de docinhos e salgadinhos distribuídas, assim dava para intercalar aonde ir buscar, sem chamar atenção de parente chato de aniversariante. E sim, eu ia às festinhas para comer mesmo, que é a melhor parte. E por falar em comer (mais ainda), não posso deixar de lado os salgadinhos. Eu era amante dos mini quibes, dando moral de leve às mini-coxinhas. Claro que os amantes de bolinhas de queijo, os mini-croquetes, as mini-empadas, os pasteizinhos assados ou fritos e as empadas. O mundo dos salgadinhos de festa era à parte, e, confesso, minha parte favorita. Primeiro porque vinha antes do bolo, enquanto os docinhos eram liberados depois. Bolo…

Claro que não dá para falar de festa de aniversário e não falar de bolo. De todos, o meu favorito sempre foi o de chocolate com cobertura de chocolate. Na década de 90, era chamado de nega-maluca. E há um sentimento triste em relação à nomenclatura, que faz menção a um estereótipo de mulher negra, pois era meu bolo favorito em minha ignorância  —  quem dera eu puder mudar a história e associar o nome a um novo estereótipo, de mulher negra incrível que super os outros em tudo, tal como o bolo. Obviamente se eu pudesse mudar a história, mudaria outras coisas prioritárias, né? Então vamos superar a romantização de nome de bolo de agride. Em todo caso, esse também era o bolo mais comum nas festas em que fui ou mesmo tive. Assim como o brigadeiro era praticamente unânime. Há uma razão para isso, certamente: chama-se acesso. Se você nunca teve que se preocupar se iria ou não ter uma festa de aniversário até começar sua vida adulta, então esse texto não é para você. Lamento. Se suas preocupações eram com qual doce escolher, qual roupa usar e quem irá cantar na sua festinha, então esse texto também não é para você. Não no sentido de que estou te proibindo de ler  —  jamais, “friend”  —  mas em ser parte dele, de mim para você. Esse presente eu te nego (alguém tem que te negar algo, né?). E voltando a falar de acesso, isso está muito ligado ao sentimento de preciosismo para com essas festinhas. Quem já viu uma mãe e uma tia virarem uma noite, depois de um dia de trabalho, para enrolar brigadeiro e bater um bolo caseiro absolutamente delicioso, para um ser que não sabe o trabalho que dá fazer uma festa “com o que se tem”, sabe muito bem que o gosto desses docinhos são de “valorização”. Quem já viu um pai correr para pegar ingredientes, montar uma mesa e um brinquedo emprestado para que alguém da prole acordasse e pulasse de alegria no dia de seu aniversário, sabe dar valor ao esforço de uma festinha em casa. Quem já se mudou tanto que perdeu a noção dos dias, mas acordou no próprio aniversário com festa de aniversário na cama, com mãe, avó e duas tias, com brigadeiro de panela, coxinha, quibe e um bolo aprendido no dia anterior e tudo feito com muito empenho na madrugada  —  pois o trabalho era muito e o dinheiro nem sempre acompanhava  —  sabe como é uma delícia só ser lembrado quando já se tinha desistido da ideia de “fazer aniversário”. Brigadeiro, meu bem!!! Leite condensado, margarina ou manteiga, achocolatado ou cacau e uma panela. E pode ser o melhor doce do mundo, com significados que o cobrem até o fim dos tempos, granuladinhos. Como não amar?!

E assim como toda festa delícia no mundo chega ao fim, esse texto chegou ao seu final. Confesso que deu fome lembrar de tanta coisa boa. Mas deu mais trabalho pensar que toda a magia das lembranças envolve uma variedade de questões e problemáticas que não se encerram no próprio assunto. E, certamente, não estou invalidando outras formas de festas de aniversário. Só valorizando as que são recheadas de significado. Seja como for, não vejo a hora de poder fazer uma festinha íntima de novo. Pessoas que amamos, em casa, tudo feito à mão se possível (ok, dá pra encomendar alguma coisa de uma doceira local) e música bem estranha pra completar. Acho até que vou chamar o amigo que ajudou a criar este texto datado e combinar uma festinha de aniversário atrasada quando a vacina chegar. Eu fico com os brigadeiros, ele com os cajuzinhos e você com o café.

Morte e o tapete na sala

Eu amo o calor nos dedos ao segurar uma caneca de café fresco, prontamente passado, num dia frio de outono. Sou completamente apaixonado pelas lentes embaçadas dos meus óculos ao tomar sopa à noite, sentado no sofá e conversando com pessoas que também apreciam sopa e notam que meus olhos desapareceram detrás duma película d’água condensada nas lentes. Considero maravilhoso a casualidade das risadas sem compromissos, de quando partilhamos o mesmo momento, sorvendo ternuras e aconchegos a goles de, quem sabe, um bom vinho. Penso eu que o frio me faz gostar disso, com as lembranças que começam na juventude da infância, quando minha mãe e avó comiam pinhão comigo em potes, enquanto todos dividíamos uma coberta aninhados num tapete. Essa foi uma prática que mantive no decorrer da vida. Sentar no chão, num tapete que não deixasse congelar a bunda e dividir cobertas e histórias com amigos e amigas. 


Foto por Brigitte Tohm em Pexels.com
Um café para esquentar as mãos e o coração.

Talvez você pense que eu esteja romantizando o tapete, o frio, os momentos, os amigos e tudo isso do que falei. E talvez você esteja certo. Contudo, vale lembrar que no decorrer dessas palavras, o autor sou eu e, assim, eu quem escolhi cada átomo semântico em toda minha plenitude de “dono” desse universo. Em todo caso, você pode estar certo sobre mim, mesmo depois dessa finta na linha anterior. E nesse caso, você, leitor, está com toda a razão, dentro de toda sua certeza. Mas e aí, para que serve sua certeza? O que dá para fazer com sua ela? Dá para se aquecer no inverno com sua certeza? Dá para encontrar a felicidade com ela? Fabricar tapetes? Salvar o mundo? Se salvar? Já pensou sobre isso? De qual é a serventia de sua certeza? Para além disso, quais delas são verdadeiras, confiáveis ou corretas? É complicado assumir “certezas”, pois é o mesmo que assumir algo ou um evento como infalível ou inevitável. Outrossim, existe algo que pode ser classificado assim, como imprescindível e certo? Bem, uma coisa existe… 

Certamente você deve ter inferido no final do parágrafo anterior que eu iria falar de morte  —  “olha só, o autor esbanjando certeza”, você pode pensar. Mas aqui nesse texto eu sou pleno, lembra? Caso não tenha chegado comigo na ideia de morte, eu falhei. E tudo bem. Mas ainda existe o título, que dá uma dica que pode ser assumida certa acerca do que eu vou falar: Morte. Essa é uma certeza provavelmente unânime em toda a história humana. É um assunto amplamente explorado, discorrido, evitado, temido, contemplado e ainda de interesse para todos. Seja como for, a gente sabe que um dia vai morrer. Disso dá pra ter certeza. E talvez essa seja, quiçá, a única grande certeza unânime. E justamente por isso é tão significativa. E a coisa mais incrível é que ela está relacionada a “só tudo”. Tudinho. A toda e qualquer “inteirice”. Total e plenamente.  

Quando a gente pensa em morte como o fim de algo, como a interrupção da vida e do que entendemos como vida, ela se torna um importante delimitador. Um marco que não pode ser ignorado, mas que é evitado a todo custo. Bem como tudo relacionado a isso. Se pensarmos nos estados que antecedem a chegada da morte, essas “coisas” passam a ser temidas. Veja a velhice, por exemplo, que é tratada, muito precocemente como o fim de tudo. Tal como uma sentença à vida funcional, ao desejo, ao útil, ao direito e à existência. Convivemos com a negação ao direito de viver a velhice, de adotar cabelos ou barbas brancas, de acharmos rugas bonitas em qualquer hipótese ou de cogitarmos desejar o que é velho ou de estarmos velhos e desejar qualquer coisa. Pois a velhice é marco do fim e é próxima à morte, e a única sensação possível aos velhos e às velhas e ao que é velho é uma ternura, uma nostalgia e um respeito com possíveis miríades de sentimentos compadecidos. Afinal, a velhice é o que está perto do fim, é um fim antes do fim derradeiro. 

Contudo, como David Foster Wallace nos lembra em um de seus magníficos ensaios, antes de morrermos propriamente, experienciaremos a morte muitas vezes. Quem dá valor à memória, terá em seu primeiro esquecimento um marco de uma primeira morte. Ao valorizarmos um artefato tecnológico, morreremos a cada avanço tecnológico novo do qual desistimos de acompanhar. Quando almejamos corpos deliciosos, seja lá o que isso for, morreremos muitas e muitas vezes com o tempo transformando em ruína toda possibilidade de alcance do ideal inalcançável de delícia. Nem para quem aprecia a inteligência deixará de suportar as mortes repetidas aos passos do colapso da mente. E absolutamente tudo isso acontecerá, de uma forma ou de outra, de acordo com o que acharmos importante. A morte faz parte constante da vida  —  para morrer, basta estar vivo, certo?  —  e deveríamos viver em paz com isso. Talvez… 

Uma das melhores formas para se lidar com a morte, em um sentido de tirar o medo e entendê-la, estão as expressões artísticas. Dentre as inúmeras obras que falam de morte, gosto de uma música em particular: Aquarela, de Toquinho (Antonio Pecci Filho). Nesse momento seu semblante pode ter se alterado. Digo, deve ter se alterado. “Como assim essa música é sobre morte?”, você deve ter pensado. Bem, a música fala claramente sobre como o futuro é desconhecido, ao mesmo tempo que afirma que as coisas irão descolorir, ou seja, chegar ao fim  —  a música também carrega fortes metáforas sobre a morte dos eventos do “Brasil de 64”, mesmo “sendo” de 1983. E essa música linda fala, em tom suave e bonito, de um dos maiores tormentos humanos, que é o fim das coisas. E, sinceramente, é justificável ter medo, pois é uma experiência que ninguém pode repetir, além de ter ninguém para contar como foi. 

Agora chegamos a um ponto complicado dessa reflexão. Afinal, é difícil falar de morte sem pisar em áreas tomadas pela religião. E aqui eu não tomarei quaisquer pontos ou investirei tempo discorrendo sobre fé ou dogmas ou quiçá quaisquer atributos do domínio mitológico. E sabe por quê? Porque eu não estou interessado em certezas. E a religião, seja ela qual for, te dá isso: certezas. E agora, se você amarrou bem as coisas, deve sacar que esse parágrafo entra em conflito com um lá do começo. Pois é, um deles precisa estar errado, do contrário, entramos em uma contradição lógica. Deixo isso para que você decida. Até porque, eu sou soberano apenas no meu texto. Sobre sua própria vida, só você e seu próprio fim são coisas certas. 

No fim, enquanto o fim não encerra o que tem que terminar, quero sentar num tapete macio, olhar meus amigos, meu parceiro, minhas amigas, minha família, minha gata, meus bonecos, meu café e meu pinhão, rir porque ainda posso e é permitido. Dividir o tapete, uma única coberta e todo o momento que puder. Para mim, isso está muito bom. Não precisa ser sempre, pode ser só de vez em quando. E é justamente por ser tão incerto quando poderemos repetir isso, que os momentos ganham mais valor. Até lá, eu tento. O quê? Não importa… mas tenho certeza de que farei isso. E para o que serve minha certeza? Para nada.

Tirania amarga em pele de boa intenção

Você conhece anime? Caso não, anime é o desenho animado japonês (que tem suas características próprias e um universo inteiro relacionado). Caso você conheça, entenda, aventure-se e seja uma pessoa focada na “causa dos animes”, relaxe, esse texto não é sobre isso. Em todo caso, existe uma personagem de um anime que possui um golpe com o nome de “cascada”, cuja pronúncia da personagem fica igual a leitura da palavra em nosso português brasileiro (muito parecido com cascata). Muito que bem! Certo dia, eu estava no carro de uma tia minha, e começou a tocar uma música de uma artista chamada Cascada. Olha só! Assim que reconheci a música, veio a mente o golpe da personagem de anime que citei, e eu, como criatura empolgada que sou, imitei a personagem falando “cascaaada” (tentando uma entonação igual e tudo mais). Minha tia prontamente corrigiu minha pronúncia, me lembrando que se fala “casqueida”, porque é uma pronúncia em inglês e ai Lúciferes de mim, tolo ignorante que precisava ser iluminado, não ter aprendido isso ainda. A ironia ali é que ela corrigiu uma coisa que não estava errada, já que meu intento era pronunciar o que eu pronunciei, imitando uma personagem que ela não teria como saber. Pois é, irônico. Mas esse não é meu ponto aqui. Eu quero atentar ao fato de que ela estava absolutamente pronta para me corrigir e, como a conheço, tudo para “me ajudar”. Lindo, não?! Definitivamente não, e aqui vamos nós. 

Quantas vezes você já presenciou alguém corrigindo outra pessoa, explicando como fazer ou falar ou escrever ou executar algo corretamente, e a pessoa corrigida não se mostrou confortável? Se eu responder minha própria pergunta, lançarei um retumbante “INÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚMERAS!!!”  —  como nota, caso você não veja esse tipo de situação, fica o convite à reflexão sobre como você age com as pessoas. Essa situação é, no mínimo, chata. Enquanto que, no máximo, é uma forma de violência abusiva que pode produzir traumas. Mas não nos apressemos. Primeiro, vale lembrar que aprendizado é algo dolorido, sofrido em níveis diferentes para pessoas diferentes, e que correções são bem-vindas quando o momento é propício. Além disso, a forma como a correção deve ser feita é muito importante. Em todo caso, ser corrigido não é fácil, mesmo que seja necessário em muitos momentos. Ainda, a gente não aprende a lidar bem com o erro  —  se aprendesse, talvez muita coisa fosse mais fácil pra muita gente. Partindo desse saber, continuemos. 

“Não importa se eu entendi o que você disse. Você tem que falar do jeito certo!”
Foto por Alex Green em Pexels.com

Espera! Te enganei. Me desculpe. Mal falei para continuarmos com o assunto norteador e já farei outra interrupção. Mas é importante, eu prometo. Eu preciso fazer um mea-culpa sobre isso. Durante muito tempo eu fui um pedante gramatical. Isso deve-se a soma de muitos fatores, como eu ter me empenhado muito para estudar minha língua mãe, em eu não ter tido confiança em me comunicar em outras línguas, em eu achar que tinha uma obrigação existencial em saber completamente o português e em outras coisas que talvez eu nem tenha entendido ainda. Contudo, eu era um pedante seletivo. Eu cobrava ou corrigia pessoas conforme eu achasse pertinente. Por exemplo, eu corrigia colegas universitários sem muitas preocupações, pois achava que qualquer um numa universidade deveria ser minimamente claro e acurado ao comunicar-se na língua mãe, por texto ou fala. Ainda, eu jamais me peguei corrigindo pessoas que eu sabia que nunca haviam estudado formalmente. De qualquer forma, eu achava que minha forma de pensar fazia sentido e me dava a liberdade para “reparar o erro alheio”. Que tolice achar que se está certo, não é mesmo?! Com o tempo, o que eu aprendi foi que minha visão era limitada, eu desconsiderava um universo de variáveis e, pior ainda, eu devo ter minado a motivação e a vontade de aprender de pessoas com as quais eu agi assim. Você, que me lê, pense! Eu cheguei a magoar uma pessoa que eu amo ao corrigir uma falta de vírgula para separar um vocativo. O que eu ganhei com isso? Nada (ok, eu ganhei o aprendizado, mas poderia ter aprendido antes, sem precisar magoar outra pessoa). Seja como for, eu tive um know how em ser pedante  —  conhecimento de causa aqui. Ainda, sempre há quem sabe coisas que você não sabe e ninguém chegará a saber tudo sobre um assunto, então, não há justificativas para ser constantemente pedante. Bom, chega de desvios e de tantos pronomes pessoais autorreferentes. 

Acho que todo mundo (considerando o universo de pessoas que possam vir a ler esse texto) que aprendeu alguma coisa e que foi corrigido no processo, tem experiências quanto a isso. A maioria das vezes, penso eu, são experiências indiferentes, como em um professor explicando uma regra que alguém usou errado, uma mãe falando como passar o rolo de tinta na parede para não respingar muito, um amigo corrigindo como você amarra o cadarço que sempre solta. Outras vezes, a correção vem de um jeito que nos fascina e abre a mente a uma nova perspectiva, deixando-nos maravilhados em conseguir fazer aquilo certo. Entretanto, há vezes em que a correção simplesmente é ruim. Ruim por causar desconforto além do inevitável, ruim por ser horrível e desmotivar, criando uma associação negativa toda vez que se volta àquele fazer, ou ruim por não ser o momento ou a uma forma adequada de correção. 

Quando penso no assunto, lembro de uma professora que repetia “elogie em público, corrija em particular”. E isso, em muitos momentos, está certo, no sentido de que o elogio pode ser propagado com raro impacto negativo, enquanto a crítica pode ser ruim. Claro que essa diretriz em forma de provérbio (não, não está em forma de provérbio, mas eu gosto dessa palavra e quis usá-la aqui) não resolve o assunto. Mas pode ser um bom passo inicial para pensar. Quando pondero em perguntas sobre esse problema de corrigir desenfreadamente, a primeira que me vem à mente é “por que existem tantas pessoas prontas para corrigir os outros imediatamente?” Sempre tem um colega no tatame para ensinar a postura certa de uma técnica marcial, mesmo quando você está tentando entender o movimento do seu corpo antes mesmo de aplicar a tal técnica. A todo momento há uma pessoa muito bem intencionada em corrigir sua pronúncia em uma palavra de língua estrangeira, que você vai descobrir mais tarde que há mais de uma forma correta de pronúncia — segundo alguma gramática. Em todo tempo há uma amiga para corrigir a forma como você explica uma coisa que você sabe. Perpetuamente há um cônjuge disposto a endireitar a mesa que você pôs. Eternamente há a tia que te “ensina” como falar certo. 

“Se a analogia da motivação ser como uma chama faz sentido, então a crítica pode ser o vento, que apaga ou alastra. Muito óbvio? Muito clichê? Muito explicado? Preciso criticar minha originalidade, já volto…”
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Obviamente é impossível retirar desconforto do aprendizado, evitar sofrimento em qualquer circunstância ou garantir a felicidade e segurança alheia. E certamente não é necessário aprender a motivar a todos, como se cada um precisasse tornar-se mestre em didática de ensino e correção. Longe disso. Contudo, não vejo a menor necessidade em buscar suavizar o processo. Se essa fosse a norma, acho que muito menos pessoas desistiriam de aprender coisas novas por se sentirem menores do que são. Ainda, como parece ser muito frequente a quantidade de pessoas dispostas a corrigir sem o menor tato, mesmo quando uma única experiência mina sua vontade, o acúmulo de correções pode fazer isso. Pensemos em estudantes que desenvolvem ódio por matemática ou desistem de aprender um idioma a fundo ou desmotivam-se em estudar um instrumento musical. Claramente professores podem influenciar com mais peso ao pensarmos em educação formal de algo, mas todo mundo pode apagar a chama de interesse de alguém.

A vida pode se tornar muito amarga, se a todo momento há alguém te avaliando. O aprendizado fica difícil, laborioso e traumático. Às vezes, quando alguém não desiste e aprende mesmo com correções ríspidas fora de lugar, há grande chance da pessoa querer cobrar dos outros o que cobraram dela. Afinal, somos a continuação dos seres anteriores a nós, condenados a repetir e imitar quando não pensamos direito  —  ou não aprendemos direito. E no fim, existe algum benefício em tornar o outro em sobrevivente do inferno que nós mesmos impomos? Há algum benefício em desconsiderar o sentimento alheio e pulverizar certezas sobre nossos semelhantes? O que há de bom na tirania? Se existe um meio para que possamos melhorar como seres sencientes e conscientes, talvez deva ser nossa obrigação buscar isso. Ou não. Por ora, eu não quero pegar a pedra do caminho para atirar em alguém. Eu só quero pensar em novos caminhos. c[_]

2020 terças-feiras

O não indiferente ano de 2020 está acabando. Declarar isso significa deixar o texto datado, e é importante que assim seja. Além disso, esse é um texto bem pessoal, então se controle. Com o final do ano se aproximando, chegam as comemorações de ano novo. E confesso que a celebração da data está entre minhas favoritas. Acho que sempre gostei de “ano novo”. Bem, não sempre, mas desde que aprendi a gostar, por influência da minha mãe  —  pensa, eu como bebê de seis meses adorando ano novo, sendo que nem sabia quais eram os conceitos de novo ou de ano. Em todo caso, a festividade me agrada. Porém, contudo, todavia, entretanto, but… (pausa dramática)… a minha  perspectiva sobre a festividade mudou ao longo da minha história. 

Eu posso citar o ano de 2013 como o grande ano “divisor de águas”. Foi um ano horroroso em vários sentidos e eu não os explicarei aqui. Antes dele, eu amava toda a ilusão de recomeço do ano novo, a escolha de metas novas, todas as resoluções que eu poderia tomar, a festividade e tudo mais. Eu era um serzinho cheio de esperanças e boa vontade. Agora, depois dele, eu decidi que a cada ano eu teria uma única resolução, que seria algo para dar conta de cumprir. Isso funcionou e logo mais falarei sobre. O ponto que quero tratar aqui é que depois de 2013, os seis anos seguintes foram bem servidos de caos. 

Eu sempre tive uma vida cheia de imprevistos. Isso é uma consequência direta de ter nascido na minha família, com quase incontáveis mudanças (de casa, cidade, estado…), um membro efetivamente facínora que deságua problemas nos demais familiares e acasos incessantes. Porém nos últimos seis anos as coisas intensificaram-se. Acho que não tive um único mês sem ter alguma mensagem de manhã sobre algum problema perturbador, alguma histeria dramática, alguma doença inesperada, comigo ou com alguém próximo. Nesse período, entre as coisas que aconteceram, dá pra citar as mais marcantes. Eu me assumi abertamente não heterossexual; Passei por um término com um cara que contraiu HIV durante o namoro (sabe-se lá como) e eu fiquei um ano fazendo exames até ter certeza que estava negativo mesmo (considerando todas as janelas imunológicas que li na literatura biomédica). E meu medo nem era o de conviver com o vírus, mas com as pessoas ao saberem; Eu tive meses de desordem “visceral”, e até hoje não sei o porquê, até porque a grana estava “curta” para ir a médicos e o tempo também era escasso. Felizmente passou, mas confesso que fazer prova de algoritmos II com seu corpo se contorcendo de dor, não é legal; Eu ingressei numa segunda graduação (que tem disciplina a de algoritmos), com meus três motivos sólidos à época; Minha mãe passou por um acidente e um tratamento para problemas pulmonares (que pelo que ela descreveu, parecia câncer e pode ter sido), em outro país, o que significa que eu podia fazer nada pra ajudar; Eu comecei a namorar e nós decidimos morar juntos, e tudo isso foi uma jornada para eu me abrir mais e compartilhar as coisas de dentro da minha cabeça; Um “parente” falsificou minha assinatura, alugou um apartamento, não pagou e eu ganhei uma dívida descomunal, uma dor de cabeça imensa e brigas com minha mãe para solucionar isso (e essa é apenas uma das tramoias que ele fez); Minha vó passou por mais de uma cirurgia, cujo processo todo englobou um monte de gente, salientando a disfuncionalidade familiar na família na qual eu nasci; Eu tive um cisto na “maçã do rosto”, que fiz acompanhamento por um ano (sem muita gente saber), até descobrir que teria que remover cirurgicamente. Cirurgia bem desagradável, posso dizer; Em um momento no meio disso tudo, tive minha primeira crise de ansiedade, antes de uma prova de estatística, e acabei deixando a matéria de lado; Eu tive que colocar aparelho nos dentes, logo depois que um molar trincou ao meio, pouco antes de ter que tratar o canal desse dente às pressas. Mas usar aparelho é algo tranquilo; Jogue aí também vários imprevistos, discussões familiares das quais eu nem estava presente e mesmo assim paguei um ônus, uma dose de homofobia velada (vinda das conexões de sangue, claro), conflitos com o fato de eu ser ateu numa família “mística”, uma lesão permanente no ombro, consumo de medicação para evitar complicações crônicas, caixa d’água furando e infiltrando meu telhado, reformas que não poderiam se adiadas e mais uma variedade de coisas menores semanalmente. Semanalmente.

Nossa, que parágrafo longo este último, né? Calma, respira, tá tudo bem. Agora, antes que você ache que foram anos ruins e tudo mais, despreocupe-se. Tudo isso e mais outras coisas aconteceram, sim, mas também muitas coisas boas estiveram presentes. E toda dificuldade superada nos deixa mais forte, certo? Claro que não. Essa coisa de ficar forte ou fraco deveria parar de ser propagada. O que acontece, é que a gente muda quando superamos coisas difíceis. Além disso, mudanças podem ser boas ou ruins. A gente pode se tornar insensível ou desenvolver mais empatia, por exemplo. Seja como for, a gente muda. E mudando, muda-se a visão sobre coisas como a passagem de ano novo. Nesse momento eu espero que você se pergunte, ou ao menos tenha se perguntado, porque eu listei todas essas coisas. E foi para falar, com um bom contexto comparativo, que 2020 está acabando. E que, para mim, foi um ano com certa ironia existencial. 

2020 não foi fácil e, por isso, foi historicamente marcante.
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Este ano foi o da pandemia, obrigando mudanças nas pessoas. Coisas antes que pareciam óbvias, mas não eram levadas a sério, como trabalhar em casa para vários tipos de funções, foram necessárias (e olha só, com vários aspectos positivos). Foi neste ano que saúde mental foi um assunto mais conversado (não muito compreendido, mas paciência) devido à sua necessidade, bem como todo mundo quase teve que ficar em casa, na obrigação de viver com as pessoas com quem se mora junto. Não poder sair, ter de usar máscara, sentir o medo disseminado, não saber qual a atitude certa para isso ou aquilo, entre tantas outras coisas, são condições desesperadoras para muita gente. Num cenário geral, 2020 foi péssimo e difícil. Para quem vive no Brasil houve o agravante de um governo incompetente na gestão adequada de um país. Entretanto, para mim, este foi um ano “bem bom”, ironicamente. E olha que eu passei por todas as coisas ali do começo deste parágrafo, assim como você. Por exemplo, morri de preocupações com minha mãe longe, tive minha produtividade testada constantemente (com vários fracassos nesse aspecto) e minha dupla do meu trabalho de conclusão de curso sumiu (espero que você esteja bem). Seja como for, foi neste período também que eu tive o privilégio de poder parar, pensar sobre minha própria vida, entender melhor algumas coisas e desafogar vários sentimentos. Esse ano está acabando muito melhor do que começou. E foi nele que minha vida se estabilizou sem tantas surpresas desagradáveis, sem tanto caos. Joguei muita romantização fora, muito lixo emocional também e tudo o que sobrou foram mudanças. E mudanças que gostei.

Com o vindouro 2021, vou manter minha tradição de uma única resolução. Uma só é mais do que suficiente para dar trabalho. E isso, claro, não implica em não ter metas e objetivos. Mas a resolução é a parte mágica da qual dá para tirar proveito, afinal. Em 2014 minha resolução foi de terminar coisas que comecei ou de abandoná-las. E olha, foi bem bom isso. 2015 eu decidi ser mais gentil com as pessoas, enquanto em 2016 eu queria ter uma rotina produtiva e diária (tolo de mim). 2017 foi a vez de fazer coisas mesmo com medo, o que nem funcionou muito, mas deu boa. 2018 decidi não ficar perdendo tempo com coisas que não me seriam úteis ou boas  —  adeus redes sociais. 2019 eu queria melhorar minhas “soft skills”, mas fracassei (fiz isso no ano seguinte). Esse ano eu busquei ser mais gentil comigo mesmo, e tô indo bem. Enfim, cada resolução é uma tentativa de ser uma pessoa um pouco melhor, tentando fazer isso de forma mais realista.  

Imagine aqui uma citação do gato de Alice no País das Maravilhas, nessa imagem linda, que pode ou não ter a ver com o texto.
Foto por Filippo Peisino em Pexels.com

“Então, o que você quer dizer, autor?” Ora, quero dizer que as coisas mudam. Algumas vezes ficam mais fáceis, outras mais difíceis. Eu tive muitos privilégios na vida, confesso, mas poucos não acoplados com alguma chantagem emocional ou uma cobrança robusta. Em todo caso, eu cresci em meio a um caos, oriundo da minha família, e para não cortar relações, permaneci próximo o suficiente para não desaparecer e minimizar conflitos. Assim, no ano em que o mundo se sentiu obrigado a ter que mudar os planos, eu me senti numa terça-feira. E compartilhar isso com outras pessoas, essa sensação de estar cansado de estar cansado, tem seu lado bom. Claro, ver um lado positivo nesse 2020 não compensa o sofrimento de tantas vidas perdidas, em momento algum. Inclusive, pessoas próximas morreram neste ano, e deixaram um vazio nas vidas de quem os conhecia. Em todo caso, está acabando. E por sorte e pelo esforço de muita gente em não disseminar mais ainda a doença, estamos vivos para escrever ou ler algo como isso aqui. Finalmente, nessa conclusão que “nem conclui”, eu desejo um ano novo bom para todos  —  até para o abjeto ser que há cinco anos está protegido em camadas espessas de justificativas e indiretamente permanece em minha vida. Desejo um 2021 melhor, mais agradável que seu antecessor. E que mesmo que tudo pareça incrivelmente problemático, com a quantidade de tempo certa dá para melhorar. Feliz ano novo, muito bom humor, mudanças positivas, momentos reconfortante, aconchego e um feliz café. c[_]

Qual o momento certo de pedir ajuda?

Você está na sua cozinha, cortando umas frutas. De repente, a faca em sua mão desliza para um corte íntimo no seu braço. Sangue verte. Você coloca a mão sobre o corte. Ardência, dor, arrependimento de ter usado uma faca sem fio, palavrões eructam maldições da sua boca em protesto legítimo. Sangue verte. Você olha ao redor, perscrutando soluções para a ferida aberta e nada. Sangue verte. Desespero e uma leve tontura tomam seu ser. Finalmente, você entende que não sabe o que fazer  —  mesmo que tenha tudo o que precisa para parar o sangramento na gaveta mais próxima, e que há antisséptico e as demais ferramentas para resolver isso no armário no canto da cozinha. Então você grita por ajuda. Mais precisamente, clama por socorro. Detalhe: você tem 12 anos nesse cenário.

Penso que com essa descrição acima, fica bem fácil de entender e, principalmente, de se identificar com a situação de que é alguém que precisa de ajuda para um problema  —  que pode custar a vida. Agora, e se a situação for diferente? E se for, digamos, ajuda para resolver um problema que não custa a vida? E se for ajuda para entender um livro? Ou um texto? Ou um parágrafo de seis linhas? Ou… qualquer coisa que um outro pode ajudar. 

Essa pergunta “qual o momento CERTO de pedir ajuda?” me veio numa aula de ciência de dados, ao testemunhar uma apresentação de um trabalho. Em resumo, o estudante fez o trabalho incompleto, porque acabou perdendo (foi perda mesmo?) tempo com a conversão de uma tabela, que estava num formato “X” e precisava estar num formato “Y”. Com o tempo que sobrou, ele pode apenas concluir parte do trabalho. O professor então diz que isso não é desculpa, que ele podia ter pedido ajuda, que bastaria uma linha de código para resolver esse problema. O estudante tenta (sim, tentar é o verbo aqui) explicar que ele pediu ajuda, mas que o professor falou que aquilo era um problema de resolução fácil e que todo programador deve conseguir resolver isso, que nós (se referindo aos estudantes de computação do mundo) deveríamos ter autonomia. Foi isso. 

Esse breve momento de história me fez relembrar de muitas situações parecidas, que presenciei, ouvi, vivenciei e até mesmo participei em algum nível. E confesso que vivi esse dilema constantemente ao estudar computação: “eu devo estudar até conseguir descobrir sozinho?” VS “eu devo pedir ajuda?”. Minha graduação foi uma viagem completa por essa dicotomia. Ouvi coisas do tipo “computação não se faz sozinho” e coisas como “você tem que se virar”. Qual o equilíbrio? Qual o tempo certo de fazer uma pergunta e não parecer um “idiota” ou um “preguiçoso”? 

Como seria um mundo em que esforço não fosse demérito?
Foto por Julia M Cameron em Pexels.com

Antes de seguir com o texto é importante explicarmos alguns pontos. Primeiro o de que as pessoas são pessoas. E toda pessoa erra. Assim, como professores e estudantes são pessoas, eles também erram, seja em seus métodos ou suas ações isoladas. Outro ponto é que há sim pessoas negligentes, que querem se aproveitar dos outros e que inventam desculpas (pensa se uma pessoa assim vira professor… só um exercício mental, mesmo). Finalmente, existem exceções, existe responsabilidade e nada é simples na realidade.  Assim, não pretendo negar que há estudantes relapsos, há pessoas que querem se aproveitar das outras, existem professores que são sádicos e alunos cruéis. Também seria completa alucinação negar que há responsabilidade pessoal em cada fracasso, bem como seria delirante e estúpido excluir de qualquer contexto o próprio contexto no qual se dá a relação que for  —  estudante e mestre, chefe e colaborador, parental e prole e qualquer outra  — , afinal o contexto é definitivamente influente. Outrossim, essa relação envolve poder, e o lado com menos poder sempre estará à mercê. Prossigamos. 

Quando precisamos fazer algo e nos comprometemos, assumimos responsabilidades com isso. Formal ou informalmente, isso faz parte do comprometimento. No caso da universidade, cursar uma disciplina tem implicitamente a responsabilidade de um estudante de fazer o que é pedido, de estudar e de apresentar algum resultado disso, na forma de um trabalho ou prova ou outro meio avaliativo. Contudo, as coisas estão longes de serem resumidas em “responsabilidade e avaliação”. Vamos pensar por um instante em alguém estudando matemática. Então essa pessoa aprende como resolver funções. Magnífico, certo? Contudo, digamos que ela entendeu uma coisa errada. Mais ainda, que ela se esforçou tremendamente para fazer com que sua forma errada conseguisse resolver seus exercícios. Já passou por isso? Já viu isso acontecer? Pois é, a frustração de passar por isso é bem chata. E como alguém que passa por isso é “recompensado”? E nesse caso, a culpa é de quem? O que poderia ser feito nessa circunstância? Se você já viu professores simplesmente sentenciado o trabalho como incorreto e a coisa ficar por isso mesmo, então você viu coisas que eu também vi. Isso desanima, desmotiva e frustra quem está sob o crivo avaliativo. 

Outra situação é quando algum estudante que tem dificuldade num exercício resolve pedir ajuda e recebe um “redondo” “você tem que estudar isso sozinho” ou “a resposta é essa, chegue nela, eu não vou explicar”. Isso acontece e o principal problema é que é o tempo todo (ou quase). Certamente, todo estudante deve aprender a aprender o que precisa ser aprendido e tornar-se autodidata. Sem dúvida. É imprescindível uma pessoa desenvolver autonomia em seus estudos, sua carreira e sua vida se quiser ser independente. Isso traz realização. Contudo, autonomia e autodidatismo não são capacidades inatas. São capacidades que demandam investimento em tempo. E cada pessoa tem um ritmo, uma história, uma forma de aprender, uma motivação e necessidades diferentes. É absolutamente comum em salas de ensino professores apontarem que fulano ou ciclano conseguiram sozinhos. Muito bem para eles. Parabéns. Todavia, geralmente os exemplos exemplares fazem parte do grupo de dezenas de estudantes cuja única preocupação é estudar, sem ter que se preocupar com o que comer ou limpar a própria casa, lavar a própria roupa, fazer compras e lidar com outras necessidades. É bem mais fácil estudar quando não se tem preocupações. 

Então é culpa das “outras atividades” quando um estudante não cumpre com algo esperado? Não é bem assim. Mesmo que tudo esteja perfeito, ainda há quem tenha dificuldades em questões que outros não têm. Não há quem seja bom em tudo. E todo mundo tem muitas dificuldades em muitas coisas. Desse modo, julgar alguém apenas por uma falha, um erro, um único momento ou um acerto, é algo que me parece, no mínimo, fraco. E, por escrever em julgar alguém, chegamos ao ponto que eu queria. Julgar, avaliar, atribuir valor, quantificar o trabalho, estabelecer métricas… Me arrisco a dizer que qualquer um em nossa sociedade entende ou sabe que há métricas que avaliam as pessoas. Na universidade, a métrica fundamental, a partícula funcional de menor tamanho, é a nota. E por que eu queria chegar a esse assunto? Porque em nosso sistema, tudo o que importa é a nota. E isso permite que as relações de ensino possam se tornar nocivas, traumatizantes e desprazerosas. 

Notas são usadas para avaliação. E deveriam, penso eu, em sua concepção, representar o quão bem alguém entendeu algo ou aprendeu. Contudo, na prática, a coisa acontece de forma diferente. Notas são usadas para definir o valor das pessoas e criar comparações. Discorda? “Seja meu convidado”. A nota tem tamanho impacto, que se tornou o objetivo de muitas gente  —  e novamente me arrisco a dizer que é de uma maioria. E esse objetivo pode ser direto ou indireto, mas muito presente. Quase palpável. Quem nunca presenciou o comportamento “não vou fazer, não vale nota”? E é graças a essa coisa toda, da nota ser o que é, que o comportamento das pessoas envolvidas nessa relação é condicionado. E nosso sistema permite isso. Desse modo a relação de discípulo querer aprender e mestre a ensinar e guiar torna-se secundária. Claro que há exceções, mas a regra é outra… 

Dada essa realidade prática, temos ainda outra característica em nosso sistema, que é a impossibilidade de recuperação. Já pensou que se você errar algo, mas aprender aquilo depois, isso terá zero impacto na maioria das situações avaliativas. Assim, observamos que nota não tenta efetivamente avaliar o aprendizado. Se assim fosse, você poderia refazer aquela prova que não foi bem. Enfim, acho que essa pincelada sobre o tema deve ser suficiente para um exercício de imaginação. E o que isso tudo tem a ver com pedir ajuda? Muito. Num ambiente insalubre, em que a comunicação está cheia de ruído, as relações enxertadas com pressupostos, cuja cultura na qual o ato de pedir ajuda pode ser interpretado como incapacidade, preguiça, fraqueza ou incompetência, não sobra motivação para querer se arriscar. Complicado, não?!

Nada do que eu escrevi contempla toda a realidade. Tampouco responde a minha própria pergunta. Até porque, se eu soubesse a resposta teria feito duas graduações muito mais tranquilamente. Ainda, como a gente reage a alguém nos pedindo ajuda? Como lidamos com qualquer colega que pede uma anotação, uma explicação ou um socorro em algo que pressupomos ser trivial? E se quem solicitar for alguém que tipicamente é visto como irresponsável, mas que está tentando mudar? A quem damos chance e a quem sentenciamos nosso juízo de derrota? Voltando a lembrar que professores também são pessoas. E essa não é uma frase solta aqui. 

De certo modo, é desesperador pensar a fundo em como tudo é zoado. Ao nos depararmos com casos de pessoas que tiram a própria vida, que estavam cercadas de gente dizendo que a pessoa podia ter pedido ajuda, isso reverbera em como as relações e as estruturas que as sustentam e alimentam não são saudáveis. Do meu ponto de vista, não deveria ser traumático pedir por ajuda. Seja na graduação, no trabalho, na vida pessoal, nas amizades ou no cenário que for. Seja para alguém parar um sangramento, entender um texto ou sair de um relacionamento abusivo. Pedir auxílio em algo deveria ser visto como uma forma de esforço e ser recompensado positivamente. Mas claro, isso é só o que eu penso. 

Entretanto, não é esse texto que vai mudar o mundo e as coisas como são. E se ajudar a mudar, duvido que seja da noite para o dia. Afinal, mudanças são como aprendizados e demandam tempo. Mas e aí, o que fazer? Pelas minhas experiências, posso passar as coisas que funcionaram para mim. Num caso geral, tente avançar o máximo que conseguir. Quando travar, peça ajuda. Lembre que há pessoas que não ajudarão, e que algumas dessas pessoas serão seus professores. Quando for este o caso, busque alguém diferente. Às vezes não há o que fazer. Quando isso acontecer, deixe acontecer. No fim, tudo passa, e o grande drama de hoje pode ser apenas uma breve lembrança daqui a pouco tempo. O mais importante, talvez, seja não se esquecer que você é a única pessoa dentro de sua própria vida. Assim, não pegue pesado consigo mesmo e consigo mesma. Tome o seu tempo e faça o que puder. Mas faça. Porque o único momento errado para pedir ajuda é ontem. c[_]

A Posição na Conchinha e a Distância entre as Batatas Fritas

Qual é a primeira coisa que vem à mente quando alguém nos pergunta “o que é o amor?”? Muitas são as possibilidades, afinal muitas são suas formas e tipos, não é mesmo, pessoa!? O amor é algo bastante complexo, cujas definições possíveis têm confrontado aceitações e conflitado ideias pelo tempo. Entretanto este texto está muito longe de trazer alguma definição sobre o que é o amor. Contudo, numa sequência conflitante de negações de sentenças, tal qual nossas lutas internas também o são, não é impossível seu surgimento, mesmo ambiguamente. Agora, voltemos aos trilhos. Eu acabara de falar que havia formas de amar e tipos de amor, antes de devanear acerca do que eu mesmo afirmei. Dessarte, se há morfologias e categorias diferentes, podemos levantar perguntas diversas sobre esse conceito confuso e complicado, mais turvo que este parágrafo, tão conhecido, difundido, discorrido e estufado de achismos e empirismos e eufemismos e “inconclusões finais”. Então, deixe-me perguntar também. Qual a distância do amor?
Qual a distância do amor, pessoa? Um metro? Vinte centímetros? Dez anos-luz? O espaço entre as costas e a barriga na posição de conchinha? Como mensuramos isso?Há fita métrica para tal? Ele tem peso? Data? Validade? E se tem, como saber? Dá pra estender? Pode-se aumentar? E o gosto? Seria mais doce, como paçoca, ou meio azedinho como notas de maracujá? Existiu um primeiro amor, que gerou os outros todos? Podemos nos confundir com o que ele é ou seria? E se não existir? Qual nome dar pra todas as coisas que confundimos com ele? Troca-se? Dá pra dar? Gasta-se? O amor dorme? Por mais estranhas que pareçam tais perguntas, são coisas com as quais quem ama acaba lidando. Nos numerosos tutoriais sobre como é amar e o que é o amor, encontramos muito mais do mesmo do que o Renato Russo encontrou. Há quem diga que amar deve ser assim, ora fácil, ora dolorido. Existem outros que esclarecem coisas que sequer sabíamos que eram dúvidas ou preocupações. Tudo muito importante. Tudo muito profundo. Quase tudo pouco prático. Isso é um sintoma ou uma consequência? Que seja.

fofura
Amar é só abraçar e coisas boas. É só fácil… será?

Colocando os pés no chão, lugar comum bastante fácil de entender, podemos tentar pensar sobre o amor em si. Geralmente alvo da mineração dos tutoriais e suas observações inteligentes e sofisticadas que não cessam temores: o convívio; disto devemos lembrar, com absoluta sobriedade, que existe um custo de convivência para cada ser vivente na Terra. Jé pensou sobre isso? Qual o custo para viver contigo? Será que você exige o cumprimento de regras rígidas ou determina a existência necessária de caos e que ninguém deva controlar outros? Sua rotina é fácil? E seus medos, o quão eles podem assombrar quem está contigo? Sua bagagem emocional interfere até qual ponto na relação? Você é confortável com outra pessoa? Você fica confortável consigo mesmo? É preciso ter quanta paciência para lidar contigo? Você, pessoa, permite que alguém se abra a você em até que ponto? E as expectativas, você as têm ou as cria ou as vive? Sejam quais forem os outros questionamentos, é inegável a existência desse custo de convivência. Sempre que vejo alguém despejando carência nas redes sociais, nas conversas dos bares e em reclamações íntimas, geralmente eu vejo que, do comportamento queixoso de “eu não encontra alguém pra mim”, há uma cornucópia de atitudes que não dão segurança para que outra pessoa chegue e queira ficar. Até porque, qual o sentido de perder tempo reclamando ou falando de felicidade se você pode ir lá e só viver a felicidade? Reclamar do mundo, de tudo e de todos, e ser a encarnação daquilo que se reclama não ajuda. As pessoas são frias… mas e você, o quão receptivo consegue ser? Ninguém quer nada sério… em que parte acham a seriedade em você? As pessoas cobram isso e aquilo, querem rótulos, querem esteriótipos, querem querer quero queria que que o quê… e você já disse o que quer? Á, mas os outros não sabem o que querem… e você sabe? É importante buscar saber. Ou não…
Antes que você, leitor paciente, desanime do amor ou do texto, dada a rispidez do último parágrafo, deixe-me contar-lhe algo bom: amar não é fácil. E isso é ótimo. Amar envolve exposição, entrega, resolução, vontade, determinação e tem um custo bem alto. A parte ótima? É que amor correspondido é aconchegante, acolhedor, restaurador, compreensivo e mais tantas coisas que colocam sentido em nossas vidas, que seria necessário enfileirar mais palavras do que átomos de H ao redor da Terra. As ações começam a ser planejadas pensando-se noutra pessoa, não por obrigação ou formalidade, mas por vontade pura. O individualismo cai, mesmo pra quem é individualista. E há egoísmo e altruísmo, em proporções conflitantes o tempo todo. E, acima de tudo, é bem assustador desejar tamanha entrega e ter tanta aceitação por alguém que não a nós mesmos. E todo esse processo de aceitação pessoal, de saber o ônus de nossa existência na vida de alguém, de buscar o entendimento de coisas que não possuem respostas prontas ou fáceis ou definitivas, é exaustivo. Mas vale cada dia vivido. Requer coragem e aceitar que certos medos vão surgir. E quando  se começa a viver um amor, o acúmulo de trivialidades absolutamente relevantes é necessário. Quem vai abraçar na conchinha? Falar que quer ser abraçado, sem ser julgado como carente, ou que quer abraçar, sem qualquer sentença tacanha, ou mesmo que sente calor quando vai dormir e busca-se ficar o mais próximo que aguentar é o que demarca o amor. Cada gesto insignificante, mas que é pensado para alguém além de si mesmo, transborda o amor. Grandes gestos são fáceis de fazer, pois tem começo e meio e fim. Amar tem início confuso, meio interminável e fim imaginário. E só se ama todo dia, em cada planejamento, vontade de estar junto, dividir momentos, perguntar coisas, ser só o que se pode ser. E isso, pessoa, é difícil. Mas quando deitamos de conchinha, ou não, abraçando ou não, quando somos amados, sentindo toda nossa fragilidade sendo cuidada por alguém, encontramos a melhor posição da vida.

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Essa referência é autoexplicativa.

Tudo bem, mas e qual a distância do amor? Essa pergunta, especificamente, desprovida de sentido romântico e iludido, bem como fundamento adequado ao raciocínio refinadíssimo humano, me trouxe a esse texto. Para tantas pessoas que perguntei isso, obtive respostas diversas. Enfurecidas, energéticas, risonhas e vagas. Como se tocasse numa ferida exposta. Senti medos alheios e curiosidades genuínas. Contudo, a única resposta que aceitei é que essa distância é a mesma entre as batatas fritas. Quando pedimos uma porção, estando juntos de alguém, e temos a plena convicção de que o outro sabe que o consideramos nessa decisão, sabemos, por alguma razão, que isso parece certo e bom. É a distância entre cada palito de batata, que é pedido sabendo que não é só pra si mesmo, pois não é um pedido egoísta e controlador, que mensura a distância do amor. Se a porção acabar, pediremos outra. É a distância ao saber que qualquer movimento a muda, mas que na prática ela se mantém igual. É o sentimento ao nos depararmos com a certeza de que cada porção pedida será compartilhada, aproveitada e completamente dividida, pela vida toda, sem o medo de acabarem. Mas então, você pessoa, percebe que não existe uma distância estabelecida e certa entre as batatas… Desse modo, assim como você queria, a distância do amor é uma metáfora bem sólida. Nada além disso. Agora, vai lá e divida o resto da sua vida com quem você ama. E até mais. c[_]